Os Dias
Os dias
os dias
os dias
Os dias com o vagar dos navios
que violentamente se arrastam
fendendo o nevoeiro e a noite
em alaridos e faróis e sereias
Os dias com a força descontrolada
das águas quando correm soltas
com o clamor inusitado das marés
dos equinócios ou dos furacões
Os dias sem madrugadas ou albas
ou auroras de róseos dedos
sem os ritmos renováveis das estações
que os resgatem da morosidade
Porque os dias se plastificam facilmente
na forma como se encarrilam
uns após os outros encaixados
sem que hajam calendários que iludam
a imobilidade dos diuturnos astros
― queremos com este arado de prata
revolver os destinos incertos dos caminhos
e dos horizontes dos caminhos
Que eu sei que existe uma fórmula
para dizer o que quero dizer: os dias
os dias os dias
Os dias enquanto refúgios de silêncio
onde queimamos lentamente os segredos
da memória
os dias como o pêndulo imóvel
do relógio que estiola a vontade
os dias submergindo nas nuvens
carregadas da melancolia das altitudes
e caindo lentamente em falsas
promessas de chuva
É aos dias que sacrificamos as horas
que existem para nos separar da noite
para que a saudade não ganhe as margens
da solidão ou conquiste a ponta dos dedos
é nos dias que nos escondemos quando
não nos servem as caraças e as mascarilhas
quando os espelhos esquecem no seu verso
as imagens e as mímicas que reflexos
não alcançam
Porque os dias não servem
sequer para nascer com duas lágrimas
ou três suspiros que se consigam ou possam
condescendentemente sacrificar ao poderoso
desejo de ocasos e crepúsculos
Que os dias não têm como encher
nossos pulmões ou nossas artérias
se não houver uma secreta voz
pronta a cantar a violência do sangue
e a quietude do ar
E se entre um dia e outro dia
se erguer a barreira intransponível
da indiferença não poderemos
descortinar na curvatura do horizonte
qualquer alteração na forma das nuvens
E se entre um dia e outro dia
se perder no deserto a chave dos segundos
deixaremos de ter como escapar
à penumbra e ao peso da penumbra
Os dias
Os dias sem haver quem os resgate
sem haver quem os renove
os dias com um andar lamacento
e pesaroso arrastando consigo
o fermento e toda a canção
Por isso é que nos esvaecemos
lentamente
porque não temos mãos para os dias
Os dias
os dias
os dias
José Maria Archer
27/x/2008
os dias
os dias
Os dias com o vagar dos navios
que violentamente se arrastam
fendendo o nevoeiro e a noite
em alaridos e faróis e sereias
Os dias com a força descontrolada
das águas quando correm soltas
com o clamor inusitado das marés
dos equinócios ou dos furacões
Os dias sem madrugadas ou albas
ou auroras de róseos dedos
sem os ritmos renováveis das estações
que os resgatem da morosidade
Porque os dias se plastificam facilmente
na forma como se encarrilam
uns após os outros encaixados
sem que hajam calendários que iludam
a imobilidade dos diuturnos astros
― queremos com este arado de prata
revolver os destinos incertos dos caminhos
e dos horizontes dos caminhos
Que eu sei que existe uma fórmula
para dizer o que quero dizer: os dias
os dias os dias
Os dias enquanto refúgios de silêncio
onde queimamos lentamente os segredos
da memória
os dias como o pêndulo imóvel
do relógio que estiola a vontade
os dias submergindo nas nuvens
carregadas da melancolia das altitudes
e caindo lentamente em falsas
promessas de chuva
É aos dias que sacrificamos as horas
que existem para nos separar da noite
para que a saudade não ganhe as margens
da solidão ou conquiste a ponta dos dedos
é nos dias que nos escondemos quando
não nos servem as caraças e as mascarilhas
quando os espelhos esquecem no seu verso
as imagens e as mímicas que reflexos
não alcançam
Porque os dias não servem
sequer para nascer com duas lágrimas
ou três suspiros que se consigam ou possam
condescendentemente sacrificar ao poderoso
desejo de ocasos e crepúsculos
Que os dias não têm como encher
nossos pulmões ou nossas artérias
se não houver uma secreta voz
pronta a cantar a violência do sangue
e a quietude do ar
E se entre um dia e outro dia
se erguer a barreira intransponível
da indiferença não poderemos
descortinar na curvatura do horizonte
qualquer alteração na forma das nuvens
E se entre um dia e outro dia
se perder no deserto a chave dos segundos
deixaremos de ter como escapar
à penumbra e ao peso da penumbra
Os dias
Os dias sem haver quem os resgate
sem haver quem os renove
os dias com um andar lamacento
e pesaroso arrastando consigo
o fermento e toda a canção
Por isso é que nos esvaecemos
lentamente
porque não temos mãos para os dias
Os dias
os dias
os dias
José Maria Archer
27/x/2008


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