Quinta-feira, 14 de Maio de 2009

Como Se Diz

Tenho muitos versos ocos
Gasto muitas palavras
Não tenho nada para acrescentar
à forma como passam os segundos
não tenho como adiar os dias

Sei que tenho muitos versos vazios
Digo tantas coisas
e não sei sequer como se diz
o teu nome

José Maria Archer
12/v/2009

O Poder do Vento

O poeta é todo ele e canta
como se não houvesse de madrugada
um sol para nascer
e entra pela manhã a passo alargado
pronto para a descoberta

Porque seu é o poder do vento
todo ele é poeta e respira
lentamente a fragrância das plantas
e o cheiro dos penedos
e traz os sentidos todos pela mão

Ele é todo poeta e sem hesitar
vai pintando paisagens com os olhos
e desbravando as águas e as colinas
ergue-se contra o entardecer
pronto para a canção primeira

José Maria Archer
12/iii/2009

Quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2009

O Nome do Poema

O olhar do poeta é uma arma de arremesso
porque não há utopia que não o apaixone
ou imagem musical que não o leve
ao extremo oposto do suspiro
O poeta respira do mesmo ar que respira
a sua caneta
e a sua mão é um forte sitiado
Ergue-se com o poeta uma canção
mais antiga que o vento e mais calada
que os prados
e é no silêncio primordial que se descobre
a força e pungência desse pélago
O olhar do poeta é uma arma de arremesso
porque não há dia em que não seja movido
a procurar o nome do poema

José Maria Archer
25/ii/2009

Arte Poética

O poeta é o silêncio
que se encontra
com a palavra do poema

O poeta é a palavra
que se perde
na solidão do poema

O poeta é o poema
que se encontra
com o nome da palavra

José Maria Archer
22/ii/2009

Segunda-feira, 9 de Fevereiro de 2009

Do Portugal Profundo

Porque há um portugal profundo encerrado
e escondido nas veias dos nossos avós
nas vielas das nossas cidades anciãs
nas pedras das calçadas e dos botequins
— um portugal de vinho e de fado
sem madrugadas que o salvem —
há esta saudade do nevoeiro e do mar
e de todas as desconhecidas amadas
Porque há um portugal profundo que vive
apenas de noite e onde o mundo não chega
um portugal que nasce de bigode e de xaile
— repleto das glórias antigas mas sem
promessas para receber o nascer do sol —
há uma guitarra em nossa voz
e um coração marinho em nossas mãos

José Maria Archer
07/ii/2009

Antiga Fórmula

Deixámos o destino engolir as nossas pálpebras
e lentamente os líquenes enchem a planta dos pés
Não há imagem que alcance a velada força
com que tombamos quando os dias morrem
ou quando as ruas nos deixam vazios
Porque morremos devagarinho com a azáfama
das horas — ninguém nos poderá encontrar —
e de cada vez que nos dizemos de novo
na mesma fórmula antiga há uma rocha
que se estilhaça e um segredo que se perde
Por isto eu — e só eu — vou deixar-nos
em alguma esquina e procurar esquecer
que algum dia existi
— para que se percam todos os segredos
que não revelei

José Maria Archer
31/i/2009

Domingo, 25 de Janeiro de 2009

A Nossa Guerra

Parece-te que estamos prontos para tombar?
Não há quem seja capaz de nos fechar as portas
e de cada vez que saímos para conquistar cidades
não voltamos sem ter saqueado a tarde e o anoitecer
e sem ter posto os dias contados a ferro e fogo
Eu não gastei minhas penas em vão —
eu que canto apenas o malefício da dúvida —
mas não tenho como lavar a minha espada.
Caminhamos intocáveis pela manhã do inverno mais antigo
e não nos param nem o vento nem a chuva
nem os homens — porque as nossas espadas ardem
com o poder da noite e em nossos escudos
dança o vermelho dragão da palavra inaudita
Somos afinal os arautos dessa madrugada de brumas
que ainda está para chegar e não morreremos
sem a ver cumprida.

José Maria Archer
25/i/2009

Quarta-feira, 21 de Janeiro de 2009

Dias Para Viver

Não me permito deixar de acordar
para que ao menos as manhãs inconscientes
não pereçam sem que lhes diga bom dia
Hodiernamente digo que os dias não foram
feitos para que eu nasça neles
não tenho porém um tempo sem mentiras
sem termos nem desejos
Se me acontecer lançar sortes
acreditem que não foi por querer
mas antes porque existe em mim
uma consciência premente do atenver
Houve um tempo em que sem marés
eu conquistaria até os longíquos ilhéus
dos dias que me restam para viver

José Maria Archer
01/i/2009

Terça-feira, 23 de Dezembro de 2008

Baleal

Lenta e lentamente, o vento esculpiu a ilha,
com seu antiquíssimo cinzel sussurrante;
e o mar quebrou as rochas com a espuma,
com as marés e com o sal.
Não havia gaivota que não soubesse
onde era o mar e não havia peixe
que não soubesse onde estava o vento;
e até as casas sentiam em si este poder.
Porque de noite o mar cantava sem ser visto
e o vento dançava nas janelas para as embalar;
e porque em dias limpos se podia ver o horizonte.
Assim, as rochas choravam as ondas
e as casas chamavam a voz do vento
— e a ilha nunca permanecia no mesmo lugar.

José Maria Archer
20/xii/2008

O Teu Incêndio

Queremos o teu incêndio em nossas vozes,
senhor deus, cordeiro de deus,
para cantarmos o dia em que vieste.
Queremos bendizer o teu nome para sempre,
senhor deus, cordeiro de deus,
mas não temos as palavras suficientes.
Queremos estender os braços como tu,
senhor deus, cordeiro de deus,
e fechar os olhos dentro do ar que habitas.
Queremos o teu incêndio em nossas vozes,
senhor deus, cordeiro de deus,
e cantaremos o dia em que virás.

José Maria Archer
13/xii/2008

Segunda-feira, 22 de Dezembro de 2008

Em Nossos Dias

Não te esqueças de nascer de novo em nossos dias
para que não te esqueça o teu povo
Se pelo fogo se prova o ouro — incendeia nossos dias
para que renovemos nossos corações
Que não restem montes ou vales entre nossos dias
e tua porta — na cidade de david

José Maria Archer
09/xii/2008

Terça-feira, 25 de Novembro de 2008

Abre As Mãos

Abre as mãos e diz-me o que lá vês:
há algum som que se erga das tuas impressões digitais?
Há alguma palavra mais ou menos secreta que nasça,
apetrechada de asas, das artérias dos dedos?
Fecha as mãos e diz-me o que lá encerraste:
conquistaste ar com o suor das mãos
para que possas respirar pela última vez?
Consegues esmagar as tuas próprias artérias
para estacar o sangue das feridas
que o vento abriu?
Com que violência abres os olhos: cegas?
Cegas alguma vez com a luz que não vês?
Abre as mãos. Fecha as mãos. Abre as mãos.
Não as feches enquanto não agarrares
a tua garganta. A tua voz.

José Maria Archer
25/xi/2008

Segunda-feira, 24 de Novembro de 2008

Dos Dias Eternos

Não te cantem minhas vozes incapazes
nem te busquem meus olhos e lágrimas
ó jerusalém dos dias contados
que não é à tua sombra que descansarei
nem é das tuas fontes que beberei
Não é em ti que mora a verdade
Não te esqueçam meus corações de alabastro
nem te larguem minhas mãos de granito
ó jerusalém dos dias eternos
que é a ti que regresso sempre que venho
de damasco

José Maria Archer
20/xi/2008

Canção do Cisne

É nestas manhãs frias do outono amarelado
que eu me sento em bancos de jardim
e não sei o que fazer com as mãos,
e não sei onde pôr os pés.
Em meus ombros pesa um suspiro enorme
do tamanho deste horizonte,
e não há mar que me separe da melancolia.
Quando vier o inverno saberei que é o tempo
que nos mata e o coração que nos mói,
porque não mais terei mãos para te estender.
Quais as palavras que me restam para te cantar?
Não mais terei mãos para te estender,
que por vezes, por vezes ainda me dóis.

José Maria Archer
18/xi/2008

Poema XVIII

Era um dia que já não tinha por onde caminhar, e decidiu então saltar o morro do horizonte e pôr-se para lá das latitudes conhecidas. Pensava ele poder escapar á sombra das nuvens e ao tanger do vento; esquecia-se, porém, de que a lua não pregava olho nesses tempos e vigiava atentamente o portão dos astros. O dia, que já não sabia onde pôr os pés, vacilou e tropeçou e, sem o querer, derrubou a fila de estrelas que esperavam a sua vez para se tombarem. Os homens, que não sabiam o que acontecera ao dia e já o buscavam debaixo das pedras e nas esquinas dos relógios, julgaram ser esse o fim dos seus dias, e as estrelas todas caindo trouxeram um fogo de artifício à noite do mundo.

Porém, não se sentiam as estrelas cadentes com vontade de desaparecer naquela noite; tomando suas caudas repletas de música, decidiram desarrumar as constelações e o zodíaco. Furiosa ficou a lua, que não havia portão que segurasse aqueles indisciplinados astros, e, na sua raiva, tornou-se escarlate e voltou as costas escuras à terra. O dia ficou baralhado com tamanha revolução, porque não pretendia chamar tanto à atenção, e, para repor um pouco a normalidade, resolveu nascer de novo no leste.

“Não há estrelas que segurem a nossa voz,” cantaram os homens “se o dia se ergue para nos banhar de ouro. Estas metáforas de som que erguemos são o nosso baluarte, com elas vencemos a noite e o silêncio e a morte. Nos nossos passos ecoa a canção mais primordial, em nossas mãos levamos a arca da essência das melodias. Com o facho os dias e da música dos dias, não tememos nem a noite, nem o silêncio, nem a morte.”

A noite, essa, suspirou e adormeceu.

José Maria Archer
06/xi/2008

Terça-feira, 4 de Novembro de 2008

Os Nossos Caminhos

Plantaste árvores em nossos dedos
mas não soubemos como dar fruto
Se levantamos pedras foi apenas para que
pudessem tombar no chão com violência
sem sacrifício ou holocausto que as lavassem
Abandonámos-te ó deus dos exércitos
e não restou em nossos dias um pouco
do teu vento
Mas não nos deixes ficar na babilónia
não deixes desertos os nossos caminhos

José Maria Archer
04/xi/2008

Quarta-feira, 29 de Outubro de 2008

Os Dias

Os dias
os dias
os dias
Os dias com o vagar dos navios
que violentamente se arrastam
fendendo o nevoeiro e a noite
em alaridos e faróis e sereias
Os dias com a força descontrolada
das águas quando correm soltas
com o clamor inusitado das marés
dos equinócios ou dos furacões
Os dias sem madrugadas ou albas
ou auroras de róseos dedos
sem os ritmos renováveis das estações
que os resgatem da morosidade

Porque os dias se plastificam facilmente
na forma como se encarrilam
uns após os outros encaixados
sem que hajam calendários que iludam
a imobilidade dos diuturnos astros
― queremos com este arado de prata
revolver os destinos incertos dos caminhos
e dos horizontes dos caminhos
Que eu sei que existe uma fórmula
para dizer o que quero dizer: os dias
os dias os dias

Os dias enquanto refúgios de silêncio
onde queimamos lentamente os segredos
da memória
os dias como o pêndulo imóvel
do relógio que estiola a vontade
os dias submergindo nas nuvens
carregadas da melancolia das altitudes
e caindo lentamente em falsas
promessas de chuva

É aos dias que sacrificamos as horas
que existem para nos separar da noite
para que a saudade não ganhe as margens
da solidão ou conquiste a ponta dos dedos
é nos dias que nos escondemos quando
não nos servem as caraças e as mascarilhas
quando os espelhos esquecem no seu verso
as imagens e as mímicas que reflexos
não alcançam

Porque os dias não servem
sequer para nascer com duas lágrimas
ou três suspiros que se consigam ou possam
condescendentemente sacrificar ao poderoso
desejo de ocasos e crepúsculos
Que os dias não têm como encher
nossos pulmões ou nossas artérias
se não houver uma secreta voz
pronta a cantar a violência do sangue
e a quietude do ar

E se entre um dia e outro dia
se erguer a barreira intransponível
da indiferença não poderemos
descortinar na curvatura do horizonte
qualquer alteração na forma das nuvens
E se entre um dia e outro dia
se perder no deserto a chave dos segundos
deixaremos de ter como escapar
à penumbra e ao peso da penumbra

Os dias
Os dias sem haver quem os resgate
sem haver quem os renove
os dias com um andar lamacento
e pesaroso arrastando consigo
o fermento e toda a canção
Por isso é que nos esvaecemos
lentamente
porque não temos mãos para os dias
Os dias
os dias
os dias

José Maria Archer
27/x/2008

Terça-feira, 21 de Outubro de 2008

Amanhã Serei Outro

Se todo o caminho é de regresso,
então eu rendo-me à estrada
para que esta me conduza à casa
que nunca conheci. Sem duvidar
das curvas e das léguas,
procuro galgar a distância
que me separa do horizonte,
e para lá do sol posto renovo
as artérias e a palma das mãos.
Se amanhã eu for outro,
até mesmo o suspiro das nuvens
e a forma sussurrante do vento
me guiarão por vales e colinas
até às costas de outro mar.
Aí, aí embarcarei.

José Maria Archer
21/x/2008

Magma

Não tendo com que se defener
a luz caiu para o lado e
abriu as mãos — e logo se fendeu
o solo por debaixo dos seus pés,
por debaixo do seu flanco.
Afinal, era a luz quem transportava
a orbe das manhãs e o poder
velado dessa aurora, e não
havia quem, impávido, a olhasse.
Não tendo como se levantar,
a luz deixou-se absorver pela terra,
pela fenda gigantesca a seus pés,
e o coração da terra bateu duas vezes
antes de se tornar em magma.

José Maria Archer
14/x/2008

Terça-feira, 7 de Outubro de 2008

Poema XVII

Conquistando lentamente esta rocha de canções anciãs, a palavra erguia-se e crescia alimentada pelo frio e pela polidez do quartzo, como se em cada pedra houvesse uma labareda azul adejando ao vento. Era uma palavra madura, experiente em epopeias e quadras populares, capaz de melodias novas e antigas, capaz de adornar a árvore ou a fraga. Moldava com vagar o seu poder antiqüíssimo, poder de marés e de vulcões, para que o sol pudesse nascer a cada dia e a lua a cada noite.

Porém, chegou o dia em que a palavra se esgotou na sua violência inusitada, e um eclipse tomou de assalto o zénite dos sons primordiais. Também as pedras em fogo perderam a sua pungência trágica e retraíram-se para mais perto do centro da terra, onde não chegam as notas desafinadas das trombetas. E nesta escuridão, até a música do vento e a canção das aves se perderam nas orlas enegrecidas pelo silêncio ― e nem o gelo ou a neve trouxeram alguma leveza ao peso lúgubre da quietude.

Agora, é preciso que a palavra se transforme pela brandura numa melodia original, que torne a encher as harpas e a conquistar as rochas e as nuvens. É preciso que a palavra reveja a sonoplastia do seu próprio poder ― para que o possa empunhar de novo, sem que haja dia ou noite capaz de o calar. Só assim poderá o poema regressar ao centro da labareda e lamber as estrelas com sua inexprimível força oculta ― e só assim podermos nós cantar o nome da palavra.

José Maria Archer
07/x/2008

Quarta-feira, 10 de Setembro de 2008

Imensidão da Noite

De tronco nu na varanda da noite
espero que a cidade me devore
finalmente como sempre prometeu
porque eu esgotei as palavras
que tinha para dizer o que
nunca disse: eu ―
e agora não sei o que fazer
com as harpas que preparavam o desfecho
dessa palavra inaudita
e voltei a dizer o que já foi dito
De pé cantando a desventura da noite
escolho a dedo as palavras que
quero guardar para ouvir num dia
em que esteja mais difícil acordar a voz
― inevitavelmente regresso a casa
sem saber de onde vir ou onde acabar
a melancolia da viagem
De coração nu na imensidão da noite
abandono-me onde nunca chegarei

José Maria Archer
10/ix/2007

Edinburgh, 11 a. m.

It took me yet another hour
to realise where I was wandering
and the water stopped at once
as the trees laughed at my innocence
‘Listen not to the silence of the river’
the old man said ‘ the water of leith
has nothing to tell you’
and the dark stones of the bridge
told countless tales of yellow smokes
and endless fogs
The city lost itself in me as I walked
with the sureness of foot of the
undecided and I kept to myself
the secrets of those unveiled streets
that ate up the sound of my boots
And as I made my way up to the postern
I realised the city knew nothing of me
and that knowledge kept me from wondering
any longer

José Maria Archer
10/ix/2008

Terça-feira, 9 de Setembro de 2008

Cant. 3, 1-3

Como encontrar aquele que meu coração ama,
se na noite escura não tenho como encontrar
a sede; e se precisar de desvelar na gentil brisa
o nome que me deram os astros e as estações,
que letras utilizarei se todas se quebraram
como se fora outono?
E se pelas colinas me perder enquanto busco,
que melodia do horizonte me resgatará desta solidão
que é não ter voz com que cantar;
que fragas e penedos me irão embalar
até ao raiar do sol?
Porque não tenho como encher o silêncio
que me devora, porque não tenho pés ou lágrimas
que descubram a estrada dos dias eternos,
porque não posso nunca ter-me por inteiro:
― eu encho meus suspiros da melancolia
de te sentir a falta.

José Maria Archer
05/viii/2008

Quinta-feira, 29 de Maio de 2008

Fantasmas

Como descobrir o que me assombra
se nem a minha sombra se encontra;
e como resgatar da minha solidão
o último suspiro que me trouxe a brisa?
Não sei se me esperam para onde vou
nem sei se de onde parto terei meu porto;
mas não tenho palavras com que dizer
o nome do silêncio que é meu fantasma.
Já não posso cantar a lua ou os dias,
nem a loucura ou a saudade ou o mar;
e a violência da ausência me deixa derrotado
por não ter como escapar ou como fugir:
pois já não sei dessa harpa que tocava
em meu peito ― e já não tenho coração.

José Maria Archer
25/v/2008

De Longe (Dt 32, 52)

Quarenta anos no deserto a caminhar contigo:
caminharia quarenta anos mais,
mas meus braços já não seguram o sol.
Quantos dias tenho para chegar ao jordão?
De longe, de longe, não te vejo senão de longe.
Onde está a voz que clama no deserto,
onde está o cordeiro?
De longe, de longe te vejo,
mas não tenho braços para atravessar o jordão.

José Maria Archer
12/v/2008

Raras Coisas

Raras coisas me disseram quanto perguntei por ti
ao sol nascente, ao quarto minguante, à ursa menor:
― que te foras mas que ficavas.

Com que olhos te verei agora; e que farei
se me acontece perder lágrimas na chuva
ou suspiros na brisa?
Deixarei que teus braços conduzam minhas mãos.

Preciso do teu nome a circular na raiz do sangue.
Por favor, não me deixes fugir de jerusalém.

José Maria Archer
06/v/2008

Explicação da Natureza

E eu era como uma árvore e em minha seiva
corria a música primordial das estações
e eu estendia ramos como braços para aninhar
todos os pássaros do céu e minhas raízes
procuravam o coração pulsante da terra como
quem se lança a um mar desconhecido
Em meu tronco a seiva fervilhava como lava
porque eu buscava o movimento vertical dos astros
e em minha copa não havia folha
que não se agitasse com a emoção de sorrir
à primavera e de tombar com o outono

E eu era como um rio de calmas águas
e as minhas margens campos férteis e o meu caudal
continha em si o mistério das cheias
e a melodia dos peixes inúmeros e todas as folhas
que sossegadamente se tombavam
Ao anoitecer todos os astros refulgiam em meu leito
e com a luz prateada da lua e com o sussurro
ondulante da brisa eu me deixava conduzir
até me perder no mar

E eu era como uma nuvem e não sabia
se havia de chover sobre os homens

José Maria Archer
03/v/2008

Renascer

Se um dia eu pudesse renascer, escolheria
uma nova cor para o céu e inventaria
novas formas para as nuvens ― porque
não há em minhas mãos forças para ser Atlas,
nem tenho sequer um suspiro posto de parte
para salvar uma estrela cadente que calhe
desfalecer em meus braços.
Se eu pudesse renascer, traria do outro lado
da aurora a melodia essencial da primavera,
para com ela encantar a noite misteriosa;
e não consigo descortinar nestas colinas o desejo
de montanha ― ou em mim o sonho de rio.
Se eu pudesse ao menos renascer, não teria
que me enfrentar quando os segredos se quebrarem
e as palavras se gastarem ― e eu temo a hora
em que os dias deixem de ter quem os segure.

José Maria Archer
26/iv/2008

De Mim Para Mim

Se eu não me posso esconder, não posso ser;
preciso do silêncio para encontrar dentro de mim
a voz secreta com que cantar as colinas
e a madrugada e o sonho.
Porque é nesse mistério que eu descubro o ar
que me traz as notas da música que enleva
e que encerra as formas últimas da palavra.
Por isso é que no descerrar das nuvens
a mim regressam estes desamparados versos
onde me escondo para nascer ― e por isso
é que as estradas e as montanhas tombam
ao som do nome inefável: o teu.

José Maria Archer
25/iv/2008

Um Refúgio

Numa mancheia de ouro e de luz me envolves,
sem que eu saiba que nome dar à presença avassaladora
do teu respirar, ou que significado atribuir
aos braços estendidos em que me recebes sempre.
Com tua voz repleta de silêncio me chamas, para que eu
volte para ti os meus passos desgastados; e o teu coração
é para mim um refúgio onde me deixo resgatar.
Não te peço senão as auroras desconsoladas sobre as colinas
― um lugar onde te encontrar; um segredo onde me perder.

José Maria Archer
23/iv/2008

Segunda-feira, 7 de Abril de 2008

Ao Sabor do Vento

Porque me tenho em teus braços, e sob a tua mão,
quero a constância das marés para me aproximar
dos teus olhos de sal e de brandura.
Se bem que meus braços não têm a firmeza da rocha,
não temo a vertigem do firmamento inefável
nem a forma secreta como te escondes na brisa.
Não te posso senão oferecer as minhas mãos vazias,
para que em meus dedos coloques teu sangue;
e porque o teu nome se diz com o corpo, quero cantar
o mistério dos cedros e dos ribeiros.
Porque me chamas com a voz do vento — eu vou.

José Maria Archer
06/iv/2008

Decifrar o Horizonte

E se for impossível esquecer que este frio
não o afastam os agasalhos, ou que as mãos,
vazias, são tão inúteis que se escondem;
será que as nuvens trarão ainda conforto
e será que poderei descobrir o mundo como turista?
Não posso ocultar que os meus ombros
são um lugar demasiado vazio, nem que
desconheço para onde fugiram os meus corações.
Tanto ar ― e eu sem conseguir respirar.
Escondo o que quero, para que se não veja
quanto me falta ― e a falta me corrói.
Por isso, mesmo não tendo como decifrar
o horizonte, me deponho aqui onde me inventei:
para que a lua me tome como oferenda.

José Maria Archer
28/ii/2008

Se A Cidade (Um Penedo Para A Saudade)

Onde está coimbra a noite é feita de guitarras
que enchem as repúblicas até à baixa.
Só sendo estudante se toma a pulso o cheiro
que têm estas ruelas onde capas esvoaçam
e memórias pernoitam como se as pedras
fossem refúgio para quem não sabe onde é o rio.
Há que conhecer a fundo a noite suspensa
onde se estende cada silêncio feito de ausência
de exagero da tragédia da regra.
Sabes que coimbra te sabe?
Não ― fazes de conta que a cidade do conhecimento
não te prende.

José Maria Archer
20/ii/2008

Dois Corações

Se separo dois corações em meu peito e me tomo por uno
como explicarei a profunda cisão no indivisível que me quero?
Eu não temo nem o escuro nem a vertigem ― antes me recolho
à passagem das sombras ― mas nem assim supero a fragmentação
daquilo que sou.
Mais fácil seria despedir-me de mãos vazias e desligar-me sem pensar
da minha própria inexorabilidade ― porque ser quem sou é uma violência
inusitada; da qual, a custo, só me salva a beleza. E este grito que sou também,
transporto-o como a um jugo inominável, sem que me possa resgatar
desta melodia com que me embalo para chorar.
Oxalá que os segredos em que me encerro não me devorem. Não tenho
como me anunciar. Não tenho como cantar o mistério deste dia.
Se eu soubesse por onde ir, a encruzilhada não existiria.
É por tudo isto que eu fecho os olhos quando não consigo, e que eu,
que não me tomo por ninguém, descerro os minutos que existem
entre o meu olhar e o horizonte.

José Maria Archer
10/ii/2008

Quinta-feira, 7 de Fevereiro de 2008

Último Silêncio

Se eu escrever, a melancolia toma conta de mim
e eu não quero que esse último silêncio me furte
ao fim desta palavra.
Tenho os olhos vazios, perdidos até, nem sequer buscando
a passageira e efémera contrariedade que tem nome de gente.
Como esmiuçar aquilo que nem meus dedos conhecem?
Há um suspiro que se forma espreitando por detrás
da solidão.
A melancolia é o último silêncio entre mim e o horizonte.

José Maria Archer
05/ii/2008

Desejo de Vácuo

Foi apenas há instantes que se tornaram
estéreis as esquinas e impossíveis
os bancos de jardim
Todos os miradouros ruíram subitamente
e as andorinhas do céu migraram para o sul
Não há luas ou poentes que guardem
segredos agora e nem sequer o poema
toma voz para se dizer
Porque eu beijei a minha solidão
com toda a força que me restava ainda
e não guardei esperança alguma
para que pudesse mais uma vez respirar
ou revelar o meu verdadeiro nome
Já só o desejo de vácuo me mantém acordado

José Maria Archer
1/ii/2008

Um Só Sentido

Tactear com um só sentido é apenas
mecanicamente deixar os gestos sólidos
para aqueles que vêm depois de encerradas
as estradas e as pontes.
Franquear a porta como se esta existisse
e ignorar o sangue nos umbrais,
que o crescente se tornou metálico e pesado
como se encerrasse destinos e segredos.
Para chegarmos a coincidentes reincidentes
basta-nos um só sentido - o humor
para rirmos da patética condição
a que nos conduzimos. Sem querer?
Sem poder entrar.

José Maria Archer
30/i/2007

Sexta-feira, 25 de Janeiro de 2008

Se A Cidade (Mutatis Mutandis)

Não há no porto proximidades ou promessas que caibam
nos clérigos ou nos aliados ― nem sequer diversidades.
A precoce calvície das ruas advém disso mesmo
da forma tão pouco alguma coisa com que se afogam também
os retratos das paredes e os sons do que se transforma
Em ecos distorcidos de fantasmas inexistentes nas sombras
das esquinas se perdem para o nevoeiro os contornos
e as sirenes dos corpos gastos e sujos de quem canta
a mais longa noite e o frio que a traz.
Escondes que o porto te esconde?
Não ― fazes de conta que a cidade invicta
não te acolhe.

José Maria Archer
22/xii/2007

Se A Cidade (Não Me Ocupes As Escadas)

É preciso provar o amargo de lisboa
para saber o que é ser castelo e santa luzia.
Um olhar necessariamente obsceno
e se mesmo um olho se abrir de cada vez
eu me assustar com a antropofagia
que diante dos gestos indecifráveis como
as imagens de mármore diante de mim
e eu fizer algum sentido para outrem ―
então o cão abandonará os degraus
que apenas eu guardo.
Esqueceste que lisboa te esquece?
Não ― fazes de conta que a cidade eterna
não te conhece.

José Maria Archer
19/xii/2007

Soma Sema

Se me descubro em silêncio a afastar reposteiros
ou desejos incertos e reticentes, abro os braços
para que se compreenda até onde posso levar
esta loucura insensata de me chamar livre.
Se descortino em mim uma réstia de inexorabilidade
ou de absurda lucidez, faço por esquecer que
o destino é uma peça de xadrez que se joga contra mim.

Não tenho forma de saber se o que penso o penso
ou se me engano em caligrafias apressadas, tremidas,
repletas de um incomunicável e violento esbulho
de toda a folha que se aventure a estar por escrever.
Nem tenho nem quero ter os resquícios de memórias
por escrever; visto que é aqui que eu quero apaga
as marcas deste odor a solidão ― e fechar os olhos.

José Maria Archer
18/xii/2007

Ouve-me

Ouve-me.
Que o dia em que chegues amanheça limpo
e sem mácula para te receber.
Que devagar se faça primavera
ao som dos teus passos vagarosos.
E que não haja pedra ou nuvem
entre os teus olhos e os meus.

Ouve-me.
Que eu saiba construir um lugar
onde possas chegar sem alarido,
onde as paredes suspirem com a ansiedade
de te receber.
Que eu saiba ouvir mais do que o eco
da minha voz e que saiba cantar
os mistérios da tua vinda.
Que o dia nos seja novo.

Porque eu sei que tu nasces na noite secreta
que murmura o teu nome.
Sei que enlouqueces ao meu lado,
por isso quero enlouquecer contigo.
Ouve-me.
Que o dia chegue e eu esteja pronto.

José Maria Archer
17/xii/2007

Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2007

Dizer o Amor

Ganho a consciência das palavras com seu peso tangível
tenho nas mãos ainda o seu cheiro trago as suas lágrimas
de água de sal e de sonhos ― para que alguém me oiça
neste silêncio que criei secretamente para me devorar
As palavras constroem o seu poder lento e portentoso
em torno às minhas mãos conquistam-me os dedos
agarram-me os pulsos e eu ― eu rendo-me às melodias
aos versos aos mistérios na esperança de poder dizer o amor.

Com sua violência imaculada e serena a palavra silêncio
torna a galgar as pálpebras e os desejos ― devagar me toma
e me transforma num inominável gesto de magia aquática
Na foz deste sentimento saudade do tamanho de seu nome
desejo-me inteiro em soluços e descubro o nome mais sagrado
das palavras repletas de noite que aspiram poder dizer o amor.

José Maria Archer
01/xii/2007

Quarta-feira, 28 de Novembro de 2007

Na Curvatura da Noite

Como as árvores se recortam contra o horizonte,
eu quero delinear-me completamente ― e assinalar
as minhas fronteiras com promíscua precisão:
para que o suave estuar que sempre me embala
ganhe um nome ― uma forma ― e se revele
aos cansados olhos que nele se esquecem.
Porque para cantar com a força repentina das florestas
e das marés é preciso uma voz ― uma lira
poderosa ― que traga consigo o espectro da luz
e os segredos sussurrados pelas nuvens e a forma
como voam os pássaros.
Então, ao amanhecer, cantarei essa estrela imensa,
porque ela nasce na mais secreta curvatura da noite.

José Maria Archer
25/xi/2007

Segunda-feira, 22 de Outubro de 2007

O Espaço em Branco

E tenho somente a última noite a corroer-me
as entranhas, um desolado diamante de outrora;
eu parto como se os meus pés possuíssem
a sabedoria de todos os caminhos por percorrer
- eu quero a melancolia que me devora
quando as horas parecem mais difíceis e nem
o orvalho, ou a chuva, ou o mar podem servir.
Há ainda a promessa do vento. O sopro inaudito.

Um espaço em branco por tudo o que se não pode dizer.
Que as palavras são raízes negras,
perigosas, ostensivas como lingotes;
que são como as noites quando caem.
Todo o espaço em branco porque tudo se devia poder dizer.













José Maria Archer
20/x/2007

Quinta-feira, 18 de Outubro de 2007

Distração

Uma janela é uma abertura tentadora
e envidraçada para crimes neo-violentos
- como a distração: onde o escanção
dos sonhos revela a sua sonoplastia -
nem crescentes metalizados no horizonte
o negam ou negariam se pudessem
Fermentando idealizações anacrónicas
para lá dos estores de outras galáxias
tombo uma por uma implacavelmente
as contradições mais que maniqueístas
e não nego que seja possível um dia
transparentemente desaparecer assim:
como se eu ou fosse (serei?) bipolar
ou transcrevesse estrelas na minha fronte

José Maria Archer
16/x/2007

Quarta-feira, 26 de Setembro de 2007

Poema XVI

Regurgitando destroços à beira-mar. Uma estrela, negra como o pélago de um olho, a pousar levemente em cima da cabeça da estátua. A estátua, desmembrada e baça e velha, afunda-se devagar na areia, por entre os grãos da areia. Baloiça o mar escuro com a voz de sete mil cavernas ecoando; as algas tropeçam, destroçadas, nas rochas que, vazias, as esperam. Estende-se uma nuvem, enorme e única, por cima de tudo; traz a ameaça do granizo e da trovoada. Uma nuvem com um peso tangível, incalculável. Uma mão de pedra, caída, faz que acena; a areia vai engolindo a mão, a pedra, lentamente, lentamente.

Se alguém gritasse aqui, não se escutaria a si próprio. Como uma caixa de Pandora, abate-se a nuvem, por cima de tudo; vai-se a estátua afogando no desabar dos relâmpagos. Tem um olho pintado de amarelo, a tinta escorre e dir-se-ia que chora. Que se esbate. O mar calou-se: tornou-se branco e surdo com a espuma. À estátua só resta a cabeça, sorri e deixa-se desaparecer. Fica a estrela, por momentos, a brilhar suavemente, mas também ela se esvaece. A nuvem vai-se embora, o mar acalma, as rochas afundam-se na areia: o cenário desconstrói-se, apaga-se.
Regurgitando sonhos e desejos à beira-mar.

José Maria Archer
26/ix/2007

Nomenclatura

Que nome têm o incerto poema
e a díficil madrugada?
E quem se atreve a pronunciá-lo?

José Maria Archer
20/ix/2007

Terça-feira, 11 de Setembro de 2007

Poema XV

Gravo a sangue as palavras dos dias, na fronte prateada que para mim conquistei. Trago os degelos de ontem, as erupções; para que, quando cruzar a vau os segredos que nunca poderei ver, possa levar trapos de ilusões para incinerar. Há mistérios inenarráveis no espaço de ar que separa dois pares de olhos, suspiros que eu não consigo. Habito na condição da terra, que não sabe qual é a estação favorável; habito no espaço inexprimível entre o poema e a caneta. Não conheço os limites das periferias dos sonhos, dos devaneios; deambulo como se estivesse perdido e procuro devolver às águas de onde vim os poderes e as glórias. Semeio desilusões como se fosse simples. Como me preocupar se eu não sei onde ponho os pés?

Colho com as minhas mãos vazias o poço de ar dentro dos meus pulmões: há sombras a mais no coração das trevas destes meus dias. Para mais, escuto as vozes escondidas dentro do fogo com mais atenção. Onde vou ninguém me acompanha. O que busco? O que eu busco não cabe nos meus lábios. Nem nos meus dias.

Porque eu, eu tenho o poema a corroer-me por dentro. Tenho esse violento veneno a romper-me as amarras. A mim fascinam-me as orlas intactas. As noites melancólicas. Os sorrisos desesperados. É – como dizer? – uma condição de ser sozinho. Ver abismos de ar a toda a volta. E sorrir ao vazio que me engole.

José Maria Archer
02/ix/2007

Para Quem Canto Eu

Se eu tivesse duas mãos, o que faria com elas?
E com que voz falamos quando ninguém nos ouve?
Quantas cores existem em simultâneo no céu,
quando não nos dignamos a levantar um olhar?
Se eu conseguir alguma vez cantar o silêncio
o que me restará quando chegar a velho?
Quantas lágrimas conseguimos inventar a sós
e quantas queremos entregar verdadeiras?
Quem me olha nos olhos quando sozinho?
Se eu tiver dois segredos para te contar
serás capaz de escutar o veneno do poema?
Como me ouves, se eu perdi a minha voz
no dealbar das contemplações estéticas?
Se eu acordar sem querer, que farei
com o ouro vivo que trago nos olhos?
E para quem canto eu?

José Maria Archer
02/ix/2007

Mais Um Dia

Tropeçou e caiu no chão um dos dias
designados para me derrotar talvez por falta
de equilíbrio ao entrar pela janela
talvez por falta de uma imagem pungente
que fizesse gritar talvez por falta de atenção
da minha parte que rude mil perdões
Agora estendido no chão esbraceja –
mas não sitia nem ao menos os calos
verdejantes dos meus pés – e apercebo-me:
que ridícula é a sua imagem agora
esbracejando no chão buscando talvez
aniquilar-me ainda assim impotente
Ignorei-o com o desprezo reservado
para apenas os dias mais importantes
e procurei espezinhar as suas pretensões:
afinal de que me vale mais um dia?

José Maria Archer
24/viii/2007