Como Se Diz
Gasto muitas palavras
Não tenho nada para acrescentar
à forma como passam os segundos
não tenho como adiar os dias
Sei que tenho muitos versos vazios
Digo tantas coisas
e não sei sequer como se diz
o teu nome
José Maria Archer
12/v/2009
"Ser poeta não é ambição minha, é a minha maneira de estar sozinho." Fernando Pessoa
Não te esqueças de nascer de novo em nossos dias
para que não te esqueça o teu povo
Se pelo fogo se prova o ouro — incendeia nossos dias
para que renovemos nossos corações
Que não restem montes ou vales entre nossos dias
e tua porta — na cidade de david
José Maria Archer
09/xii/2008
Se eu não me posso esconder, não posso ser;
preciso do silêncio para encontrar dentro de mim
a voz secreta com que cantar as colinas
e a madrugada e o sonho.
Porque é nesse mistério que eu descubro o ar
que me traz as notas da música que enleva
e que encerra as formas últimas da palavra.
Por isso é que no descerrar das nuvens
a mim regressam estes desamparados versos
onde me escondo para nascer ― e por isso
é que as estradas e as montanhas tombam
ao som do nome inefável: o teu.
José Maria Archer
25/iv/2008
Numa mancheia de ouro e de luz me envolves,
sem que eu saiba que nome dar à presença avassaladora
do teu respirar, ou que significado atribuir
aos braços estendidos em que me recebes sempre.
Com tua voz repleta de silêncio me chamas, para que eu
volte para ti os meus passos desgastados; e o teu coração
é para mim um refúgio onde me deixo resgatar.
Não te peço senão as auroras desconsoladas sobre as colinas
― um lugar onde te encontrar; um segredo onde me perder.
José Maria Archer
23/iv/2008
Onde está coimbra a noite é feita de guitarras
que enchem as repúblicas até à baixa.
Só sendo estudante se toma a pulso o cheiro
que têm estas ruelas onde capas esvoaçam
e memórias pernoitam como se as pedras
fossem refúgio para quem não sabe onde é o rio.
Há que conhecer a fundo a noite suspensa
onde se estende cada silêncio feito de ausência
de exagero da tragédia da regra.
Sabes que coimbra te sabe?
Não ― fazes de conta que a cidade do conhecimento
não te prende.
José Maria Archer
20/ii/2008
Se separo dois corações em meu peito e me tomo por uno
como explicarei a profunda cisão no indivisível que me quero?
Eu não temo nem o escuro nem a vertigem ― antes me recolho
à passagem das sombras ― mas nem assim supero a fragmentação
daquilo que sou.
Mais fácil seria despedir-me de mãos vazias e desligar-me sem pensar
da minha própria inexorabilidade ― porque ser quem sou é uma violência
inusitada; da qual, a custo, só me salva a beleza. E este grito que sou também,
transporto-o como a um jugo inominável, sem que me possa resgatar
desta melodia com que me embalo para chorar.
Oxalá que os segredos em que me encerro não me devorem. Não tenho
como me anunciar. Não tenho como cantar o mistério deste dia.
Se eu soubesse por onde ir, a encruzilhada não existiria.
É por tudo isto que eu fecho os olhos quando não consigo, e que eu,
que não me tomo por ninguém, descerro os minutos que existem
entre o meu olhar e o horizonte.
José Maria Archer
10/ii/2008
Se eu tivesse duas mãos, o que faria com elas?
E com que voz falamos quando ninguém nos ouve?
Quantas cores existem em simultâneo no céu,
quando não nos dignamos a levantar um olhar?
Se eu conseguir alguma vez cantar o silêncio
o que me restará quando chegar a velho?
Quantas lágrimas conseguimos inventar a sós
e quantas queremos entregar verdadeiras?
Quem me olha nos olhos quando sozinho?
Se eu tiver dois segredos para te contar
serás capaz de escutar o veneno do poema?
Como me ouves, se eu perdi a minha voz
no dealbar das contemplações estéticas?
Se eu acordar sem querer, que farei
com o ouro vivo que trago nos olhos?
E para quem canto eu?
José Maria Archer
02/ix/2007